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quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Quase uma Ode poema de Julio de Saraiva lido por VÓNY FERREIRA


QUASE UMA ODE

para ana cristina cesar, hilda hilst e orides fontela, pela alta poesia que fizeram - nem sempre entendida. a torquato neto também poeta brilhante e que foi tão cedo.



tenho sonhos tristes
e me pego sempre no purgatório
(alma penada saio fugindo de mim mesmo)
se me esbarro na rua peço licença
tenho um cigarro entre os dedos
e um olhar de culpa
o hálito de álcool quase doentio
devo morrer de cirrose hepática amanhã - diz o médico que é meu amigo
meus óculos estão fartos dos meus olhos
e na janela nenhum luar mais enxergo
no entanto resisto e escrevo
só sei fazer isto: escrever
como se escrevendo às três da madrugada
eu pudesse mudar o mundo
tenho um litro de uísque do lado
dois maços de cigarro que me vão matar mais depressa
e um milhão de adultérios que me levarão
à casa da amada que não existe
se pelo menos eu conseguisse cortar os pulsos
mas me falta coragem nesta hora
quando a rua é deserta
queria sentir pena de mim
mas aos 53 anos isto é quase impossível
dou um trago na bebida
acendo um cigarro
e tento escrever um poema
quem sabe o cansaço me vença e eu durma mais tarde

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júlio

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