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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

CARTA DE DESPEDIDA




Escrito por: Vóny Ferreira

O tempo é de balanço. Não de recriminações, nem tão pouco de assimilar culpas ou desaires.
O tempo é unicamente de reflexão. Há quanto tempo o não fazíamos?
Neste dia ensolarado onde as sombras se infiltram pelas brechas da nossa alma, o melhor caminho é sentar-nos no chão, absorver o ar envolvente como se estivéssemos com falta de ar. Ouvir de seguida os pássaros que se desinteressaram dos horrores quotidianos, porque o destino deles se cumpre no preciso momento em que chilreiam para nos encantar.
Experimenta essa paz aqui ao meu lado. Sentes? Respiras esta fantástica sensação de liberdade?
Descomprimamos as palavras e codifiquemos a naturalidade abstracta com que tudo acontece nas nossas vidas. Nada é por acaso, dizem.
E não é, de facto!
Talvez por isso, neste momento… o coração se adense neste remanso agitado, de peregrino sem fé. Mas não desiste. Teimosamente segue ainda o compasso das suas batidas, como uma andorinha perdida que não desiste de procurar o seu ninho. Repara, ouves?…
Apercebes-te como ainda bate? Como se emociona quando nos atrevemos a olhar nos olhos?
O amor lá está, debruçado entre os próprios joelhos em sinal de abandono e lamento, mas espera-nos!
São perceptíveis ainda os gritos que nos lançam em silêncios de vidro, nos gestos. Sente-se as angústias que se filtram com as lágrimas derramadas, mas o amor lá está… à nossa espera, sim! É uma questão de sabermos ouvir…
A jangada de paus, onde tu eu temos andado numa aventura de prisioneiros do sonho, acaba de sofrer um rombo colossal. Abanou mas não afundou. Cabe-nos então a tarefa de recomeçar a reconstruir o que ficou danificado.
Os ramos de alecrim que pusemos juntos aos lirios no topo da jangada, ainda irradiam o seu perfume suave e embandeiram os nossos mais belos ideais.
O amor verdadeiro é isso… sabias?
As tempestades varrem muitas vezes as praias, como se um maremoto se agigantasse à nossa frente para nos mostrar a pequenez do que somos, mas logo depois vem a luz da aurora devolver-nos a esperança, como se nos atravessasse o coração através dos olhos do anjo que nos guarda.
Por mais que alguns tubarões esfaimados tentem beliscar as algas que nos servem de manto verde onde repousamos as esperanças e os velhos sonhos, cabe-nos a nós remar com as próprias mãos no mar infinito dos nossos ideais cujo pôr-do-sol nos indica o infinito…!

(VÓNY FERREIRA)

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