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quarta-feira, 31 de julho de 2013

"NÃO...JÁ NEM SINTO O NUNCA" [ Vóny Ferreira]





Encontrei o teu olhar orvalhado, junto à hera que trepava os muros da minha imaginação( agora infértil) e senti um arrepio estranho. Ainda te lembras do cântico das cigarras nas noites de lua cheia?
Eu que ainda não perdi tudo... que tenho uma memória retalhada e leiloada, ainda me vou lembrando dessas futilidades que o coração nos obriga a viver desnecessariamente.
Sabes?… Emocionei-me… mas recompus-me. É que no meu cérebro existem agora rochas sem mexilhões, rodeadas por um mar descontínuo que teima em espirrar nos meus olhos transformados há muito em diques de alta segurança. Mas nada mais do que isso. O que sinto deixou de ter a mínima importância, logo, vale zero. Um contra-senso, acrescento eu, porque me emocionei. Sim… e logo eu… que substitui o coração pinga amores que tinha, por uma pedra gasta e vulgar. Pedra mesmo pedra. Inútil.
Eu? Eu… sim.
Que leiloei as emoções mais autênticas numa feira medieval onde os lobos vestem com perícia pele de cordeiro. Que corro nua durante longas noites, em busca da resposta das estrelas que teimam em luzir sem falar. Que busco o tesouro desconhecido na sinalética do sol quando este beija as flores discretamente e me empurra para este jazigo que é a minha imaginação. Eis que vejo então o teu sorriso de cacto florido que insiste em ignorar-me, quando a minha alma se põe a esvoaçar ente as tuas pestanas e se compadece da minha tristeza inútil, lavando-a com a luz única dos mais recônditos caminhos onde só te encontro para te voltar a perder de novo.
Eu? Eu sim…!
Que coloquei no lado direito do peito uma réplica de outro coração que amei, o teu? Como se não tens coração algum? Chego a pensar que só pode ser um coração de sabão. Que passou a estar programado apenas para assinalar compassadamente as horas e os dias que se alheam da existência. Pobres vidas as nossas…! Que desperdício, santo Deus!
Lá vamos nós lançando ao vento bolinhas de sabão coloridas para que o vento as conduza até aos pássaros que se riem de tais artifícios que só os loucos sabem decifrar.
Enquanto eu… vou confrontando (o outro eu) e me zango por concluir que…
- Somos nós… sempre nós, que matamos o amor nos nossos corações quando deixamos de acreditar na veracidade dos sentimentos. Nós… exclusiva e pateticamente, nós… é que destruímos o amor e nunca o contrário.
Se o amor for verdadeiro vence os mais terríveis obstáculos, claro… claro…! Será? Deus… responde-me que eu já nada sei do que sabia e que nada era que fosse digno de se saber!
Insisto em viver carregando esta espécie de relógio programado, que me vai permitindo que viva estranhamente vazia e à deriva. E isso… é o mesmo que deambular por caminhos sem retorno e sem alma.
Até quando vou ser capaz de trepar e chegar ao cume das árvores para me agasalhar com as folhas dessa hera estranha que insiste em trepar as veias do meu coração calcinado?
Os sonhos que me vestiam conhecem agora o hálito da brisa e insistem em se liquidificar sempre que os pretendo agarrar.
("NÃO...JÁ NEM SINTO O NUNCA")




Vóny Ferreira__________________  M.Ivone B.S.Ferreira 2013 
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